__________________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________________ MUCABA ANGOLA C.CAÇ.2613: MEMÓRIAS SOLTAS DE UM EX-COMBATENTE 19

2009-09-26

MEMÓRIAS SOLTAS DE UM EX-COMBATENTE 19

Esta noite tive um sonho coisa que já não é de estranhar, como quase sempre povoado de fantasmas, fantasmas dum passado (não muito recente já lá vaõ quase quarenta anos) que teimam em me provocar talvez testando a minha resistência psíquica e mental, já lhes provei mais que uma vez que não me voltam a deitar abaixo, aconteceu uma vez por acaso, agora chega, não ganhei a guerra mas tenho vencido as batalhas.

Encontrava-me numa das margens do rio Bite-Bite, aquele que segundo contavam, um camarada de uma companhia anterior à nossa tinha, numa travessia a pé sido arrastado para o fundo por um Jacaré e que nunca mais foi encontrado, não sei da veracidade da história, mas uma coisa ela me provocava sempre que tinha-mos que atravessar aquele rio, um frio pela espinha que conseguia ser mais frio que a própria água que nos ensopava a todos.

Tinha chuvido bastante durante a noite, o local que tínhamos que atravessar era bastante fundo com uma corrente de apreciável força, com uma vara tentamos ver qual era a profundidade, daria pela cintura aos mais altos como eu, mas a meio do rio de certeza que ara mais fundo, para encontrar -mos um sitio com menos profundidade teríamos que subir muito pela margem o que não era fácil, e iríamos desviar-nos da rota traçada para objectivo em vista. Tentamos prender uma corda na outra margem mas não conseguimos, também ninguém teve coragem de atravessar o rio a nado e assim prender a corda na outra margem, a corrente do rio era muito forte e a tal história do jacaré dançava no cérebro de cada um.

Resolvemos depois de várias opiniões escolher na margem uma árvore fina e com comprimento suficiente para atravessar o rio e ajudar-nos a nós a atravessar também, descoberta a dita que tinha cerca de 30 a 40 cm de diâmetro, o trabalho seguinte era deitá-la abaixo de modo que a mesma caísse de modo a fazer uma ponte, a única ferramenta para tal era a catana do nosso guia negro, também se podia fazer na base um corte para encaixar uma granada ofensiva e faze-la explodir à distância, (não havia cordão explosivo), mas isso iria denunciar a nossa presença coisa que não nos interessava, levamos muito tempo para deitar abaixo aquela árvore só com um catana, mas um pouco a cada um com mais ou menos jeito lá foi, não chegou bem ao outro lado do rio mas já era suficiente, os primeiros a passar foram cortando aqueles ramos que atrapalhavam mais.

Já haviam passado uns três e a nossa ponte começou a tornar-se perigosa devido à chuva e à lama, então resolvemos passar por dentro de água usando a árvore como travão para que a corrente não nos levasse, sempre a pensar naquele maldito Jacaré, mas a água era tão escura que não nos deixava ver nada, quando cheguei a meio do rio a água já me dava quase aos ombros, tive que me agarrar ao tronco com um braço, e com o outro manter a arma e bolsa de enfermeiro fora de água.Foi um alivio para todos quando nos encontramos no outro lado do rio, como já estava a escurecer procuramos um local para montar o acampamento no dia seguinte teria-mos que recuperar o tempo perdido em direcção ao objectivo, claro que esta seria mais uma noite a dormir com a roupa toda molhada, porque não havia hipótese de a mudar, e dormir sem roupa no mato era coisa que não passava pela cabeça de nenhum de nós, e também não havia roupa para mudar o que seria peso extra, também sabia-mos que de manhã estaria praticamente enxuta.
Despertei ao som da voz do locutor da RDP anunciando que já passavam trinta minutos das oito da manhã, levantei-me bruscamente e não vi os panos de tenda sob os quais tinha adormecido,tampouco os camaradas tinham ficado comigo no mesmo abrigo...afinal tinha sido mais um sonho,mas quase tão real porque o que eu vi em sonho aconteceu mesmo, talvez os pormenores não tenham sido assim mas foram muito semelhantes, só que por mais que tente não me consigo lembrar qual era o nosso objectivo para aquela missão, vou tentar lembrar-me ou sonhar novamente, pode ser que consiga continuar a história.

2 Comments:

Anonymous Joaquim Coelho said...

Amigo Edgar,
a memória dos tempos arrasta-se até aos confis da vida, porque as vivências em situações difíceis jamais se apagarão da nossa mente. A forma mais saudável de correr com os fantasmas é expressar o que nos vai na alma, pondo à discussão com os companheirios de jornada tudo aquilo que outrora nos era vedado falar.

Bem haja pelos seus escritos e pena é que não sejam mais divulgados.
Um abraço do Joaquim Coelho, ver em http://joscoelhos.multiply.com

11:53 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

fui pesquisar mucaba e encontrei o seu blog, que muito me comoveu, pois, sendo filha de um oficial , vivi a guerra, através do meu pai, em mucaba, pelos vistos, logo a seguir à vossa. Meu pai foi comandar para mucaba e levou filhos e mulher com ele. Tenho fotos minhas, ao colo dos meus pais, à porta da messe de oficiais, ou lá o que aquilo era, e também, com o Sr. Melo, que comia sempre connosco. Decerto o conheceu, pois está numa destas suas fotos. Fiquei admirada por ter tantas fotos de Mucaba e foi uma saudade daqueles tempos. Infelizmente o meu pai faleceu este ano, mas todos os anos, ele almoçava com a sua companhia e, tinha sempre muito orgulho nos homens valentes que com ele partilharam aquela guerra.
É bom saber que alguém os recorda e dignifica. Um bem-haja.
Ana Duarte Figueira

7:44 da tarde  

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