__________________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________________ MUCABA ANGOLA C.CAÇ.2613: MEMÓRIAS SOLTAS DE UM EX-COMBATENTE 12

2006-07-25

MEMÓRIAS SOLTAS DE UM EX-COMBATENTE 12



UMA LUTA PARA VENCER

O dia rompeu como quase todos os dias no aquartelamento da Serra de Ambuila, zona de Quitexe, como de costume um grupo de segurança já saíra para o mato com os madeireiros, repentinamente a rotina diária do aquartelamento foi quebrada. O velho Willys irrompe pelo recinto trazendo um homem ferido, o Gil tinha pisado uma mina anti-pessoal, a poucas centenas de metros dali, repentinamente passaram pela minha mente todos aqueles camaradas que eu tinha encontrado no Serviço 5 do Anexo do Hospital Militar da Estrela quando fiz o estágio, assim como as histórias de cada um deles.
Agora ali estava eu, tendo que enfrentar a realidade nua e crua de mais uma dessas histórias, rapidamente deitamos o Gil na única maca que havia, e colocamo-la atravessada na traseira do Jipe para me ser mais fácil prestar os primeiros socorros que era possível. Pus a correr um balão de soro, fiz um garrote e tentei à força de compressas parar a hemorragia no que restava da perna do camarada ferido, enquanto isso ouvia o Duarte dentro da barraca que servia de posto de socorros e posto de rádio, tentando desesperadamente contactar via rádio a pedir a evacuação urgente de um ferido grave.
Cá fora na rua eu continuava a tentar por todos os meios parar a hemorragia, missão impossível num ferimento com aquela gravidade e com os poucos meios que havia à disposição, enquanto ia falando com o Gil tentando manté-lo consciente até a evacuação para o Hospital Militar, e o Heli que não chegava … não sei quanto tempo demorou uma hora duas… não me recordo, só sei que para mim aquele tempo de espera durou uma eternidade. Felizmente o Gil manteve-se dentro do possível, pacientemente calmo durante aquela espera, as duas injecções de Morfina que lhe apliquei fizeram o seu efeito.
Finalmente o ruído característico do Helicóptero fez-se ouvir e pousou à entrada do aquartelamento levantando uma nuvem de poeira, fez-se a transferência do ferido para a maca do Heli, que levantou de imediato levando o Gil num “ passeio “ que era uma despedida da nossa companhia, a guerra para ele tinha terminado ali, iria seguir-se uma luta também ela árdua, mas que com coragem por certo ele iria vencer.
Para mim foi de todos, o acontecimento que mais me marcou e o que psicologicamente mais me afectou. Só voltei a vê-lo praticamente 30 ano depois, no almoço do Batalhão na Gafanha da Nazaré, foi o primeiro almoço convívio a que fui e que me deu imenso prazer, mas, reencontrar o Gil, e vê-lo a andar normalmente apesar da prótese, foi de todo, o maior prazer !

3 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Keep up the good work » »

1:05 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

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2:29 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

Enjoyed a lot! »

3:40 da manhã  

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