__________________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________________ MUCABA ANGOLA C.CAÇ.2613: MEMÓRIAS SOLTAS DE UM EX-COMBATENTE 3

2005-12-18

MEMÓRIAS SOLTAS DE UM EX-COMBATENTE 3

A CAMINHO DO EMBARQUE

Já dentro dos camiões, depois de nos dizerem que íamos direitinhos para o barco, fui tomado por um pavor enorme, não por me aperceber que ia tomar parte numa guerra com a qual eu não concordava, devido às minhas ideias, ou ideais políticos, coisa que felizmente fui aprendendo com o meu pai, mas que ao mesmo tempo, achava que deveria cumprir com o meu dever de militar.
O pavor que se apoderou de mim, foi devido à lembrança que tinha deixado as malas depositadas na estação de Santa Apolónia, e não iria passar por lá, para as poder levantar.

No caminho até Lisboa, feito assim como que, pela calada da noite, deu-me tempo para pensar nas muitas e variadas maneiras que poderia ter para resgatar as minhas malas, que alem das minhas roupas, tanto civis como militares, tinham também outras coisas que me iriam fazer falta. E assim pensei, quando chegar ao cais esgueiro-me sem ninguém dar por isso, meto-me num táxi e vou à estação levanto as malas e regresso imediatamente, e fica o assunto resolvido, ninguém, no meio de tanta gente, vai dar pela minha falta, e com este pensamento encostei-me a um saco doutro camarada e consegui passar pelas " brasas ".

Quando os camiões chegaram ao cais, já havia montes de pessoa, entre curiosos e familiares dos militares que iam partir e que destes se queriam despedir, eu não tinha lá ninguém. Havia entre o navio e assistência, uma barreira metálica, e outra da Policia Militar, ninguém podia entrar ou sair do local. Fui novamente assaltado pela sensação de desconforto, de quem ia deixar em terra todos os pertences que naquele momento tinha.

Feitas as formaturas, para receber os cumprimentos das autoridades militares e civis presentes, foi a vez das senhoras da Cruz Vermelha e da Caritas nos desejarem boa viagem e de nos oferecerem uns presentes que não nos serviam para nada, excepto os primeiros aerogramas para escrever à família. Após a ordem de destroçar, cada um pegou nas suas coisa e começaram a subir para o navio ordenadamente como mandava a disciplina militar, muitos sem saberem estavam a dar o ultimo adeus às famílias que ficavam no cais.

Faltava resolver o meu problema, fui falar com o 1º Sargento Pereira para me ajudar a resolver o assunto, depois de lhe contar o sucedido com as minhas malas, e ter ouvido um raspanete, ele assinou uma autorização para eu poder passar pela P.M. para ir resolver um assunto familiar inadiável.

Com o papel na mão dirigi me ao oficial da P.M. que estava a comandar a força, e que era um Alferes " maçarico " e contei-lhe o sucedido, ele olhou para mim com ar de quem não sabe o que fazer, e disse-me " tás lixado pá " tu já não podes sair daqui o barco vai partir dentro de uma hora, não tens tempo de ir e vir, e eu não te posso deixar sair, pensei cá para os meu botões, tás lixado mesmo pá.

Mas... meu alferes, mande dois dos seus homens no jip comigo, vai ver que é rápido, assim estamos a perder tempo! Isso é que não posso fazer, apanha um táxi e vai, eu não te vi, não vi esse papel, e não te autorizei a sair daqui.

Bem dito bem feito, apanhei o primeiro táxi que estava à mão e parti em direcção a Santa Apolónia para resgatar as malas que estavam no depósito de bagagens.

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