__________________________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________________________ MUCABA ANGOLA C.CAÇ.2613: MEMÓRIAS SOLTAS DE UM EX-COMBATENTE -16

2006-08-28

MEMÓRIAS SOLTAS DE UM EX-COMBATENTE -16


O MEU XARÁ
Era um negro alto e magro, aparentemente com uns cinquenta anos, apoiado numa muleta toscamente feita de um ramo em forma de forqueta, almofadada com alguns trapos velhos, o pé direito pendia inerte e com várias cicatrizes, eram cerca das 16 horas estava eu a arrumar o posto médico, ele falou qualquer coisa com o sentinela da porta de armas, que lhe indicou o caminho para o posto de socorros que ficava em frente à entrada do quartel, subiu com algum custo os três degraus que dava para o patamar, já eu vinha ao seu encontro.

Então o que se passa perguntei, senhor enfermeiro eu vem buscar o dotor porque mulher tem o bebé travado, O quê? Perguntei eu já adivinhando que o que quer que fosse, para me calhar a mim tinha que ser coisa boa, ainda por azar o Dr. Mendonça não estava na vila, O Doutor não está cá, explica-me isso melhor. Ele então tinha vindo da casa dele, porque a mulher estava para ter bebé e o bebé não saía, e ele não conseguia ajudar.

Ele tinha feito a pé cerca de 12 quilómetros de muleta, enquanto a mulher tinha ficado sozinha a dar à luz, foi então que me disse que viviam sozinhos numa palhota no meio do mato próximo da picada e a sanzala mais próxima ficava a seis ou sete quilómetros.

Lá fui à ferrugem para ver se havia alguma viatura e condutor disponível, salvo erro foi o Lixa, mesmo para se aventurar picada a fora, só comigo e com o negro quebrando todas as regras de segurança, só ele que já era “cacimbado” antes de apanhar o cacimbo, mas como era uma questão de saúde, talvez até de vida ou morte, metemo-nos no Jeep e lá fomos picada fora, mais voado que rodando, por vários motivos, com a pressa nenhum de nós levou arma.

Pelo caminho eu só pensava o que é que eu ia fazer quando lá chegasse, pois nunca tinha assistido a um parto e ainda para mais sozinho, quando lá chegamos, a mulher continuava em trabalho de parto deitada numa esteira, mas felizmente já tinha metade da criança cá fora, não me recordo de ter usado luvas, também ainda não se falava da SIDA, peguei numa toalha que estava à mão coloquei por baixo da criança como que a embrulha-la e tentei ajudar a mãe puxando para mim o bebé até que este saiu completamente.

Com duas pinças fechei o cordão umbilical do lado do bebé e do lado da placenta, depois cortei e dei um nó o mais próximo possível do abdómen da criança, entretanto a mãe já tinha uma toalha e começou a limpa-lo, dei à mãe uma injecção de Methergin, para quem não sabe é um Uterotónico para ajudar a recuperar e evitar alguma hemorragia posterior ah! O bebé começou a chorar sem ninguém lhe bater.

Depois de tudo mais calmo sentei-me a falar com o pai da criança, perguntei-lhe porque viviam ali tão isolados, foi depois de alguma insistência minha que ele me contou que não era dali que durante as “ Macas “ (para quem não sabe, as macas eram a guera os cobates enfim a confusão do começoda guerra) de 1961 tinha vindo com outros que também andavam nas Macas, mas depois uma bomba de um avião matou muitos, ele ficou ferido só naquele pé que ficou sem andar, esteve seis anos escondido na mata, depois encontrou aquela mulher fizeram a casa e ficaram por ali, porque os da sanzala não os queriam lá.

Depois fez-me um convite para ficar a ser o seu Xará, (não sei se é assim que se escreve em Quicongo) ou seja seu compadre, padrinho do bebé, então eu concordei, mas depois tive que ir ao posto de administração fazer o registo do afilhado, que ficou a chamar-se Edgar Moreno mais o apelido do pai que não me lembro qual era.

Bem o meu Xará todas as semanas me ia levar ao quartel, fruta, maluve, outras vezes frangos ou galinhas, enfim coisas de compadres, eu em contrapartida dava-lhe vitaminas, comprimidos, para as dores etc. Coisas de compadres

4 Comments:

Anonymous Joaquim Coelho said...

Bem haja pela divulgação de parte da nossa história que muitos desconhecem. A dignidade dos combatentes merece todo o esforço deste trabalho. Saudações
Vou enviar-lhe um exemplar do meu livro sobre Angola "O Despertar dos Combatentes..."
Joaquim Coelho

1:31 da manhã  
Blogger MAH-TRETAS said...

Fico feliz por encontrar mais uma página dedicada aos ex. combatentes.
Aqui pode-se recordar uma parte do nosso tempo passado por auela paragens e quiçá fazendo a alguma justiça que os governantes deste pais continua vergonhosamente a esquecer.
Ex Furriel Miliciano 69/71 Leste de Angola.

Um abraço

4:57 da tarde  
Anonymous Angolana said...

Xará (também não sei se é assim que se escreve) não quer dizer comprade, mas sim, pessoa com o mesmo nome. Como no caso do bebé que ficou a chamar-se Edgar Moreno........ A isso é que se chama "xará".

8:34 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

António Nunes Jerónimo (Virúla) , dono da fazenda Maria Fernanda (fazenda do Virúla) de que fala o post, faleceu dia 15 de Fevereiro de 2007 com 85 anos.

6:49 da tarde  

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